Michael topo

Título Original

Michael

Lançamento

23 de abril de 2026

Direção

Antoine Fuqua

Roteiro

John Logan

Elenco

Jaafar Jackson, Juliano Krue Valdi, Colman Domingo, Nia Long, Miles Teller, Laura Harrier, Jessica Sula, Larenz Tate, Kat Graham, Kendrick Sampson, KeiLyn Durrel Jones, Joseph David-Jones, Jamal R. Henderson, Tre Horton e Rhyan Hill

Duração

127 minutos

Gênero

Nacionalidade

EUA

Produção

Graham King

Distribuidor

Universal Pictures

Sinopse

A história do superstar pop Michael Jackson, desde seus extraordinários primeiros dias no Jackson 5 até o artista visionário cuja ambição criativa alimenta uma busca implacável para se tornar o maior artista do mundo.

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Michael | Crítica

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O “rei do pop”. O espetáculo em pessoa. Um dos maiores artistas de todos os tempos – senão o maior. Geralmente, eu costumo evitar hipérboles como estas (“o melhor da História”, “um dos maiores de todos os tempos”, etc). Porém, no caso específico de Michael Jackson, até mesmo o mais exagerado dos elogios se justifica. Se hoje a palavra “gênio” se banalizou a ponto de ser usada em qualquer circunstância besta, para o astro que estampa a capa de Thriller ela se aplica sem que ninguém precise perguntar por quê.

Nem tentarei enumerar aqui todos os recordes, conquistas de honrarias do popstar, já que isso, afinal, não seria necessário; todos as conhecem de cabo a rabo. Em vez disso, contudo, prefiro puxar da memória um exemplo de algo que rolava em minha infância: quando eu era criança, assistia a trechos de shows/clipes de Michael na tevê e contemplava, encantado, aqueles passos de dança dificílimos – que ele fazia parecer fáceis, casuais – eu tinha a sensação de estar vendo não apenas um artista extremamente talentoso, mas, também, um homem que praticava ali um superpoder; algo que nenhuma outra pessoa no mundo seria capaz de executar daquela forma (como o voo do Superman ou as teias disparadas pelo Homem-Aranha). E quer saber? Ainda acredito nisso.

Em suma: Michael Jackson era um artista que merecia tudo – menos uma cinebiografia medíocre como esta dirigida por Antoine Fuqua e estrelada pelo sobrinho do próprio biografado.

O mais frustrante é que, em teoria, Michael toma uma decisão narrativa que considero até promissora: em vez de tentar abranger toda a trajetória do protagonista em apenas duas horinhas (e se estabar completamente pelo caminho), o roteiro de John Logan prefere se delimitar a um recorte da vida do “rei do pop” – no caso, a jornada de emancipação de Michael ao se libertar das garras de seu pai carrasco, Joseph, que, além de criá-lo na base do abuso físico e psicológico, controlava suas atividades empresarias de modo a impedir sua independência financeira mesmo após estourar com o álbum mais vendido de todos os tempos. À primeira vista, um conflito dramático perfeito para servir de centro narrativo; pena que, na prática, Michael consiga a proeza de mesmo assim soar corrido, superficial e artificial em todos os tópicos que aborda (algo simliar ao que rolou em Meu Nome é Gal).

O primeiro problema que salta aos olhos, em Michael, é a claríssima impressão de ser um filme que originalmente era muito mais longo e que, de última hora, foi retalhado rapidinho para caber em uma metragem de duas horas. (Sabe aquela sensação de se assistir a um filme na Globo e perceber, com estranheza, que tudo foi picotado, que o ritmo soa apressado demais e que falta um plano aqui, uma cena inteira ali, um pedaço de um take acolá, etc? Pois é algo assim.) Não há uma preocupação mínima em se conectar um “episódio” da vida de Michael ao outro, criando uma transição/progressão dramática de um pro outro. Apenas jogam essas situações de qualquer jeito e, quando começam a ganhar algum aprofundamento, já cortam bruscamente (às vezes, em elipses de anos a fio) para cair de paraquedas no meio da próxima. Quando apareceu nos créditos que o co-responsável pela montagem era o mesmo John Ottman de Bohemian Rhapsody, aí tudo fez sentido.

Neste movimento, eles deixam de “lapidar” os dramas/conflitos que introduzem, de modo a deixá-los extremamente simplórios, sem uma elaboração mínima. Quando querem abordar alguma problemática específica (que não seja o arco principal da interação entre Michael e Joseph), eles cortam toda a parte da introdução e da resolução, deixando apenas uma cena no meio em que algum personagem verbaliza diretamente a intenção desta problemática, só para constar que, pelo menos, ela foi mencionada. Quase como uma checklist de “coisas, eventos e pessoas que não podem faltar em uma biopic de Michael Jackson”, assinalando cada item sem se preocupar de fato em polir nenhum.

Não há um “recheio” entre uma situação e outra, de modo a fazer o espectador sentir uma progressão em uma trama. Aliás, não há uma narrativa, mas, sim, um “fichamento” – malfeito – de coisas/datas soltas sobre a vida de Michael. Eles só mostram informações (“ó, no ano tal aconteceu isso”, “naquele ano aconteceu aquilo”, “naquele outro ano aconteceu aquilo outro”, etc), sem ter o mínimo interesse em amarrá-las numa costura dramática. (Nem preciso comentar as lacunas inexplicáveis que ficam entre uma cena e outra, como a questão do vitiligo que é atirada de maneira vergonhosa).

O pior é que, ao simplificar todas as situações, eliminar as consequências/repercussões que viriam entre uma cena e outra e ficar nesta mania de apresentar uma problemática para já aparecer com ela resolvida na cena seguinte, este filme comete o pior pecado que uma cinebiografia sobre Michael Jackson poderia cometer: fazer parecer que sua jornada de ascensão foi… fácil. Ele tem um obstáculo a superar? Na cena seguinte, já é resolvido. (Às vezes na mesma cena, como naquela envolvendo os chefões da CBS e da MTV.) Simples assim. Nada é desafiador; tudo se acerta rapidinho. Isso tira a gravidade das coisas de uma forma que acho até desrespeitosa com o próprio biografado (em um projeto que, supostamente, teria o desejo de enaltecê-lo).

Quando se chega ao fim, a sensação é a de ter passado os olhos rapidinho (e superficialmente) pela página de Michael Jackson na Wikipédia. Você leu/assistiu a um monte de dados sobre a biografia dele, mas não sentiu uma construção dramática que os levasse de um a outro e que formasse uma narrativa de fato (o que claramente era a intenção dos realizadores; é um projeto formulaico e convencional demais para se cogitar que eles tenham qualquer desejo em rasgar manualzinho de roteiro). As datas que pipocam na tela a fim de informar o espectador em que ano a trama está (porque a montagem não dá conta de construir a sensação de passagem do tempo de forma sólida) só reforçam esta impressão.

O que impede o filme de ser um desastre total é a presença de Jaafar Jackson e Colman Domingo, que seguram a barra mesmo que tudo ao redor os sabote o tempo todo (no caso do primeiro, tem o mérito de conseguir interpretar Michael sem cair na caricatura, fazendo sua versão soar como um ser humano de fato). Mas, para além disso, a direção de Antoine Fuqua é tão… chocha, quadrada e borocoxô que até as sequências musicais saem prejudicadas – e basta pegar qualquer performance original de Michael e compará-la às recriações feitas neste filme e fica fácil perceber como o trabalho de Fuqua jamais faz jus à potência do “rei do pop”.

“Ah, mas não é justo comparar com as obras originais de Michael, já que o filme precisa caminhar e sobreviver por conta própria.” Ora, mas… se o próprio filme fica me pedindo para compará-lo às obras originais de Michael, brincando de recriá-las o tempo inteiro, então… por que eu não deveria comparar? Assim, para um filme sobre um showman como Michael, acho até comedido, comportadinho e quietinho demais. Fora que as recriações em si têm uma artificialidade que dá a elas um teor quase paródico (involuntário), me lembrando um episódio dOs Padrinhos Mágicos em que eles entram na tevê e vão passando rapidinho por vários desenhos clássicos.

Em suma: nem o verniz da memória afetiva por Michael Jackson salva. Pontuar com a música “Bad” – cujo refrão é, em tradução literal, “eu sou ruim” – não poderia ser mais apropriado; deve ser um meta-comentário genial.

Obs.: um filme que se propõe a “homenagear” Michael Jackson, mas faz parecer que a escalada dele foi fácil, dá mais destaque ao crápula de John Branca que a Quincy Jones (!!!) e inclui aquela cena ofensiva de estúpida envolvendo o nariz de Peter Pan (entendedores entenderão) pode ser considerado “respeitoso” para com o cara?

Assista também ao vídeo que gravei sobre o filme:

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Michael Jackson era um artista que merecia tudo – menos uma cinebiografia medíocre que consegue a proeza de fazer sua trajetória parecer fácil e suas performances musicais, comportadinhas.

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