Pânico

Título Original

Scream

Lançamento

13 de janeiro de 2022

Direção

Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett

Roteiro

James Vanderbilt e Guy Busick

Elenco

Melissa Barrera, Jenna Ortega, Mason Gooding, Mikey Madison, Courteney Cox, David Arquette, Neve Campbell, Dylan Minnette, Jack Quaid, Marley Shelton, Jasmin Savoy Brown, Sonia Ammar, Skeet Ulrich, Kyle Gallner e Roger L. Jackson

Duração

114 minutos

Gênero

Nacionalidade

EUA

Produção

James Vanderbilt, William Sherak e Paul Neinstein

Distribuidor

Paramount Pictures

Sinopse

25 anos após uma série de crimes brutais chocar a tranquila Woodsboro, um novo assassino se apropria da máscara de Ghostface e começa a perseguir um grupo de adolescentes para trazer à tona segredos do passado mortal da cidade.

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Pânico (2022) | Crítica

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Ao sair da sessão deste novo Pânico, que retoma a saga originalmente criada por Wes Craven mais de uma década depois que este a deixou, fui tomado por uma sensação mais ou menos parecida com a que tive em Ghostbusters: Mais Além (do qual já não fui grande fã): ambos são projetos que ressuscitam antigas franquias célebres sob uma lente perdidamente nostálgica, que revisitam cada elemento icônico com a adoração de um fanboy que acredita estar lidando com um artefato sagrado, mas que não parecem se dar conta de que o grande diferencial das obras originais estava justamente… em seu senso de humor debochado que impedia qualquer traço de “comoção” de se alastrar por ali. No caso de Pânico, em particular, “reverência” e “solenidade” são duas palavras que simplesmente não casam em uma série que desde o início sempre foi marcada pela irreverência e pela autoconsciência satírica.

Batizado apenas de Pânico (sem a numeração ao final do título) mesmo se tratando de uma continuação direta dos filmes anteriores (exatamente como os últimos Halloween e A Lenda de Candyman fizeram), este quinto capítulo volta à cidadezinha de Woodsboro cerca de 25 anos após os eventos do longa original, com um novo assassino se vestindo de Ghostface para atacar mais um grupo de adolescentes – desta vez encabeçado pelas irmãs Sam e Tara Carpenter (não, não acho que a escolha do sobrenome seja por acaso). A diferença, porém, é que desta vez a trama “whodunnit” (leia-se: “quem matou fulano?”) estará intrinsecamente ligada a velhos segredos de Woodsboro que vêm à tona depois de anos – o que, é claro, significa também o retorno de velhos rostos conhecidos da franquia.

Não é preciso muito esforço para perceber que este novo Pânico é mais um exemplo de “refilmagem disfarçada de continuação saudosista”, juntando-se a um balaio precedido por obras como O Despertar da ForçaJurassic World, Procurando Dory, Ghostbusters: Mais Além e etc – e o fato de nenhuma ser um primor em termos de qualidade já diz muito. Assim, o roteiro de James Vanderbilt e Guy Busick recria à risca cada batida do filme de 1996 enquanto se diverte ao fazer uma série de referências/piscadinhas/“metacomentários” sobre o legado daquela produção, trazendo também novas heroínas para exercerem as mesmas funções de personagens veteranos que, por sua vez, voltam para “passar os bastões” à nova geração.

Em outras palavras: Pânico 5 tenta fazer… bom, basicamente tudo aquilo que Pânico 4 já fez – e melhor! – há 11 anos, usando o tempo que se passou desde o original como forma de retornar aos seus eventos e reencená-los, desta vez, como farsa. O que mais enfraquece este quinto capítulo, no entanto, nem é só o fato de repetir tudo aquilo que o anterior já havia proposto sem se dar conta disso; o mais decepcionante mesmo é perceber como os realizadores desta nova versão se entregam a uma lógica de “fã babão cego pela nostalgia” e, com isso, tratam o universo criado por Wes Craven com uma bajulação que não poderia ser menos compatível com o espírito irreverente e anárquico que sempre o caracterizou, como se jamais tivessem entendido, afinal, o que tornou a obra que veneram tão única e célebre.

Notem que, ao escrever sobre o anterior, elogiei o fato de ele “não encarar a nostalgia como um fim em si próprio” e destaquei que “a maneira com que Wes Craven e o roteirista Kevin Williamson (…) retratavam estes retornos [a elementos-chave da franquia] passava longe de qualquer ‘solenidade’” – e, para ilustrar melhor meu argumento, até comentei que “não havia, por exemplo, um travelling se aproximando de certo personagem de costas enquanto uma trilha emotiva ia subindo a fim de criar uma expectativa sobre quem era aquela pessoa (e nos levar à catarse quando ela finalmente se virasse para confirmarmos, entusiasmados, que ‘Ah, é [fulana que eu conheço e adoro]!)”…

… já em Pânico 5 acontece exatamente isso, quando Sidney surge pela primeira vez – de costas – e a câmera e a trilha criam lentamente uma antecipação até o momento em que a personagem se vira e o espectador enfim pode gritar: “Não acredito, Neve Campbell voltou!”. Pois é.

Assim, nesta ânsia de fazer um “filme de fã” repetindo ponto a ponto tudo que o original fazia, sem trazer nada a não ser a mera bajulação, o novo Pânico não percebe estar se tornando… apenas mais uma “refilmagem disfarçada de continuação saudosista” genérica e descartável, empregando a memória sobre o legado da saga menos como forma de tecer um comentário a seu respeito e mais como desculpa para um fan-service emocionadinho – e até a inevitável morte de um dos integrantes da “antiga geração” (o quê? Spoiler alert? Ora, até parece que vocês não sabiam que isso aconteceria!) se revela a mais “fácil” possível, acometendo justamente o personagem que mais apostaríamos que pudesse morrer. E o que dizer da estúpida – e, de novo, excessivamente nostálgica – ideia de voltar com um antigo vilão da franquia em uma versão “fantasminha” que aparece convenientemente aqui e ali (e ainda sugerindo um parentesco absurdo com… vocês descobrirão)?

Neste sentido, até a “autorreferência” pela qual a série se notabilizou é reduzida um artifício cínico e barato para o filme se explicar para o espectador, já que, em vez de criticarem/satirizarem qualquer aspecto do Cinema de terror, aqui os diálogos “metalinguísticos” se resumem aos personagens simplesmente relatando (verbal e literalmente) os clichês que compõem a trama e as motivações comerciais por trás do projeto do qual participam, numa lógica meio “Vou tirar sarro de mim mesmo primeiro para que os outros não tenham mais moral para fazê-lo depois”). Como se não bastasse, a maneira como o terceiro ato tenta encaixar um discursinho sobre “a toxicidade dos fandoms de franquias pop” soa tola e conveniente, já que, nos 90 minutos que vieram antes, o máximo que o filme esboçou sobre o assunto foi… um comentário solto sobre grupos de fãs – o que, convenhamos, é muito pouco para constituir um discurso sólido e consistente acerca do assunto.

Não que Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett não criem ocasionalmente uma ou outra cena mais interessante: a que abre o filme, por exemplo, é hábil ao remeter à clássica abertura do original sem deixar de criar uma tensão própria (embora lhe falte coragem para matar Jenna Ortega como mataram Drew Barrymore em 1996), ao passo que toda a sequência que envolve um carro com farol direcionado a uma parede encontra o equilíbrio perfeito entre o terror e o humor ao reutilizar “Red Right Hand” (outro elemento-chave da série) de forma inspirada. Infelizmente, são acertos apenas pontuais, já que na maior parte do tempo Bettinelli-Olpin e Gillett exibem uma falta de imaginação terrível, desde o uso de uma trilha óbvia a ponto de se tornar insuportável até outras escolhas envolvendo o ritmo de certas passagens. Observem, por exemplo, a interminável cena em que um jovem perambula pela casa enquanto espera a mãe voltar do mercado: por mais que os dois diretores tentem brincar com a expectativa/iminência da aparição do assassino, eles parecem achar que apenas prolongar o tempo de um plano, por si só, implica necessariamente em tensão acumulada (como nem sempre é o caso, tudo que conseguem é fazer o espectador passar a sequência toda pensando “Ok, Ghostface, apareça logo e faça o que tiver de fazer”, tornando-a monótona em vez de aterrorizante).

O mais frustrante, contudo, é que perceber que, como qualquer senso de ironia ou sarcasmo da série se perdeu por completo, a própria postura de Ghostface em cena acaba sendo afetada: se nos filmes anteriores o assassino se tornava divertido – e marcante – ao aparecer tropeçando, dando de cara em algum canto e sendo atingido por um item qualquer, revelando-se um slasher mais despojado e atrapalhado do que nos acostumamos a ver, em Pânico 5 ele soa como… uma variação genérica de Jason Voorhees ou Michael Myers, surgindo apenas como um monstro estático que se vira lentamente em direção à câmera enquanto uma trilha barulhenta acompanha seu movimento. De novo: não há espaço para humor ou irreverência; tudo aqui deve ser grave e solene (mesmo que isso custe tudo que tornava Ghostface, por exemplo, tão singular).

Guardando algumas homenagens (bem declaradas, aliás) ao mestre Wes Craven, que faleceu em 2015 com o futuro da franquia ainda em aberto, Pânico 5 ainda assim soa como um “projeto de fã” cujo fã em questão parece nem ter entendido direito a obra pela qual se diz fanático. E nada poderia sinalizar isso melhor do que a pavorosa ideia de se realizar a “passagem de bastão” dos velhos aos novos protagonistas através… do fantasminha camarada de um antigo vilão da série.

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